quarta-feira, 14 de maio de 2014

Maldição?!


No dia do 110º aniversário, o SL Benfica inaugurou uma estátua em homenagem a Béla Guttmann; é certamente uma homenagem merecida, no entanto, a meu entender a estátua deveria estar na rua, perto dos adeptos.  

É famosa a "maldição de Guttmann" sobre o SL Benfica, é frequentemente relembrada no mundo do futebol. Há até adeptos do SL Benfica que lhe guardam ressentimento, outros que querem perdão, mas o que é a maldição de Guttmann? 

Esta "maldição" é um mito do futebol, faz parte do folclore, até certo ponto ajudou a popularizar o SL Benfica. Já li sobre ela em muitos meios de comunicação social estrangeiros, quer quando se fala de Béla Guttmann, quer quando se fala de finais europeias do SL Benfica. 

Conhecido como "o Mago", Béla Guttmann sempre foi conhecido por ser controverso: nas decisões e nos comentários. Saiu o FC Porto para o SL Benfica, aparentemente, sem contactar os dirigentes do FC Porto, acabou por sair do SL Benfica também de forma abrupta. Voltou a ambos os clubes mas sem o sucesso que teve antes. Para o SL Benfica veio assinando um contrato com elevado prémio para a vitória na Taça dos Clubes Campeões Europeus, clausula pedida por si e não contestada devido à improbabilidade que aparentava em ser cumprida.


"Um treinador é como um domador de leões. Ele domina o animal, na jaula onde faz o seu espectáculo, enquanto tem autoconfiança e não demonstra medo. Mas no momento em que fica inseguro da sua energia hipnótica quando a primeira sombra do medo aparece nos seus olhos, ele está perdido," dizia. Sobre os seus empregadores, o húngaro uma vez declarou: "Durante a primeira temporada, o técnico trabalha calmamente; a segunda é mais difícil; e a terceira é fatal." Parecia levar este seu pensamento muito a sério nunca ficando muito tempo em nenhum clube, normalmente uma ou duas épocas. No SL Benfica, na primeira época venceu o campeonato, na seguinte voltou a vencer o campeonato e ainda foi campeão europeu, na época "fatal" voltou a ser campeão europeu. Este período já excedeu aquilo que para ele era razoável (foi o maior que passou em algum clube), até porque como ele disse "não conseguia treinar 11 comendadores" (referindo-se às honras que os jogadores recebiam), voltou, na altura da renovação, a tentar esticar a corda e pediu mais dinheiro e mais poderes no futebol do SL Benfica. A direcção do SL Benfica não cedeu perante as condições impostas por Guttmann e este saiu (já nem orientou a equipa que venceu a Taça de Portugal nesse ano). 

Na altura da saída disse que nem em 100 anos o SL Benfica voltaria a ser campeão europeu ou um clube português conseguiria ser bi-campeão europeu. Com o passar dos anos e com a perda de finais da TCCE por parte do SL Benfica (três nas 6 épocas seguintes) estas palavras passaram a "maldição". E nem mesmo com Guttmann, no seu regresso ao SL Benfica em 1965/66, esta foi quebrada. Com o passar dos anos, esta maldição parece ter-se alargado a qualquer final europeia do SL Benfica.

Era defensor do futebol atacante, foi um dos percursores do 4-2-4, dizem que foi quem levou esta táctica de jogo para o Brasil (que se veio a sagrar tri-campeão do mundo dessa forma).

Alguns anos depois de ter saído do SL Benfica o jornal A Bola fez uma entrevista imaginária com Béla Guttmann, utilizando frases proferidas por si, da qual destaco as seguintes partes:

"- Por que vectores passou o sucesso do Benfica de Guttmann?
- O segredo do êxito do Benfica não esteve na aplicação de teorias psicológicas mais ou menos ousadas e eficientes mas sim na estruturação da equipa segundo um modelo de jogo colectivo, tanto quanto possível perfeito.
(...)
- Quais os termos exactos da sua famosa maldição, que continua a dar muito que falar... ?
- Nem daqui a cem anos um clube português volta a ganhar duas vezes seguidas a Taça dos Campeões.
Foi difícil ser treinador do Benfica?
- Contra o Benfica, todos valem, ou fazem por valer, o dobro daquilo que efectivamente valem. É uma guerra santa.
- A mística do Benfica é apenas um mito?
- Só quem está lá dentro do Benfica é que pode saber o que é a mística. Eu, antes, já tinha ouvido falar na mística. Mas encolhia os ombros. Não sabia o que era. Francamente, até pensava que não fosse nada, que não passasse de uma simples e vã palavra. Agora, porém, que a conheci, senti e vivi, afirmo-lhe que ela existe. Não há nenhum clube do Mundo que possua mística igual à do Benfica. E é este, afinal, um dos grandes segredos dos seus êxitos e da sua força. 
- Não está a exagerar?
- Não. Tentarei explicar algumas das suas manifestações exteriores mais palpáveis. Veja, por exemplo, a sua massa associativa. Chove? Está frio? Faz calor? Que importa? Nem que o jogo seja no fim do Mundo, entre as neves da serra ou no meio das chamas do Inferno, por terra, por mar ou pelo ar, eles aí vão, os adeptos do Benfica, atrás da sua equipa. Grande, incomparável, extraordinária massa associativa!
- E os jogadores sentem esse clima?
- Nunca encontrei jogadores que sentissem tanto a camisola como os do Benfica. Mesmo que não sejam tecnicamente famosos, tornam-se futebolistas assombrosos e temíveis. É a mística do Benfica, compreende?
(...)
- Há fórmulas simples no futebol?
- O «passa, repassa e chuta» é indispensável para chegar ao golo. - Só isso? - Marca e desmarca. Se a bola não é nossa, marca; se a bola é nossa, desmarca. Este é o princípio, o princípio fundamental.
- Outro conceito...
- O sistema para os homens e não os homens para o sistema.
(...)
- Considera-se um treinador de ataque?
- Sempre me interessou mais que o ataque fizesse mais golos do que obrigar a defesa a não os sofrer. Não me desgosta nada que o adversário marque três ou quatro golos desde que a minha equipa marque quatro ou cinco...
(...)
- Não abre excepções, é sempre ao ataque?
- As equipas orientadas por mim não costumam jogar à defesa. Os bons resultados conseguem-se jogando ao ataque. Quanto muito tolero que se defenda o resultado se este for favorável e se cifrar na diferença mínima nos últimos dez ou quinze minutos do encontro. Mas só nessa hipótese.
(...)
- A sorte e o azar fazem parte do futebol?
- Não tenhamos dúvidas. Sem sorte não se conseguem bons resultados no futebol. Só com sorte nada se consegue. Essa sorte de que tanto se fala faz parte do futebol, é dele, pertence-lhe, tal são seus os golos, os pontapés de canto ou os penaltys. Não se podem dissociar. 
-E a sorte, como consegue?
- E preciso saber pela lutar pela sorte, ou antes, não nos esquecermos dela em todas as circunstâncias. Quando se está em «dia não» luta-se pela sorte; quando se está em «dia sim» basta aproveitá-la. Compreende senhor? Nada tem nada de complicado."


Foi um dos melhores treinadores da história do SL Benfica, foi que conseguiu os maiores feitos no clube, os seus conceitos marcaram o SL Benfica dos anos 60 e 70, é por isso que merece ser recordado, mais que por uma maldição que não existe. No entanto, mesmo que o SL Benfica ganhe esta final da Liga Europa se pode dizer que a maldição está quebrada, não apenas porque a maldição não existe, também porque se ganhar a competição não será campeão da Europa.

Que amanhã os nossos jogadores sintam a camisola como aqueles que Guttmann encontrou e que a nossa mística esteja bem presente.

3 comentários:

  1. só uma correcção, esta entrevista não foi real mas sim imaginária. as "respostas" de Guttmann foram frases suas dispersas ao longo, compiladas deste modo.

    em todo o caso, não há registos dessa "maldição" ter sido proferida.

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